

Estávamos no ano de 1980, e Portugal estava a passar por grandes mudanças enquanto uma família que tinha acabado de chegar do Brasil começava a sua vida no país.

Dois adultos e três crianças – Graça, Fernando e Rui – embarcaram numa viagem de regresso de férias do Algarve para Lisboa, ansiosos por iniciar um novo ano escolar. O sol de setembro brilhava sobre a estrada enquanto o Morris Marina atravessava lugares icónicos como o Canal Caveira, Marateca, Grândola, Castro Verde, entre outros.

A viagem que estava planeada para ser tranquila transformou-se numa aventura épica. O filho do meio, Fernando, debatia-se com uma febre alta, desafiando a viagem desde o início. O percurso teve o primeiro percalço com um pneu furado perto de Messines, que foi trocado e colocado o pneu suplente meio vazio, que não era usado há muitos anos…Passado alguns quilómetros o pneu que estava a suplentes, furou, não era de admirar com pouco ar e com o carro muito carregado.
Sem assistência em viagem, uma vez, em 1980 não havia reboques como há hoje, o pai teve de procurar ajuda à moda antiga, esticando o braço e levantando o polegar e fazer-se à estrada. Um pormenor importante, era domingo e não havia casas abertas! Mas tinha de fazer alguma coisa, parado os pneus não se iam reparar, lá contou com a bondade de um camionista e foi direto, à localidade a seguir.



Ao fim de mais de duas horas de espera lá chegou o pai numa carrinha de caixa aberta (Datsun Bluebird), azul que trazia os pneus reparados de forma “artesanal”, com remendos de bicicleta…
Colocados os pneus nos seus respetivos sítios, colocada as malas e afins, colocamo-nos á estrada. Fomos devagar, tentando que não houvesse mais contratempos.
Uma epopeia é sempre uma epopeia…
Perto de Beja existia um acidente onde a estrada estava cheia de destroços e um dos vidros cortou um pneu… A cena repete-se, tirar todas as bagagens, para chegar ao pneu suplente e “surpresa” estava vazio – recordasse, que tinha sido reparado com pneus de bicicleta?
Mais uma vez o pai teve de procurar ajuda à moda antiga, esticando o braço e levantando o polegar e fazer-se à estrada, como estávamos perto de Beja a esperança era grande…
Claro que todas as pessoas se conhecem nestes locais e rapidamente o Pai chegou á casa onde morava o dono da estação de serviço e contando toda a história o homem lá se comoveu e apressou-se a o desenrascar.
Algum tempo depois lá veio o Pai, num reboque de um trator com os pneus reparados, o Fernando “ardia” de febre, e nem a enfermeira experiente como a mãe retirava todo o desconforto, daquela viagem.
Tralha e malas colocadas no sítio, retomamos o caminho.
Era final de Setembro, no meio do Alentejo, e o termómetro marcavam cerca de 37º graus, não havia ar condicionado, o que tornava as viagens feitas a meio do dia muito desconfortáveis, por isso como os meus pais, as famílias optavam por sair muito cedo, caso existissem percalços, mas não com tantos.
Mas a viagem foi correndo, entretanto paramos em Grândola, para comer o “farnel” que a Mãe tinha preparado, com tanto amor e carinho. Quem não se lembra das cestas de verga, onde se trazia o tacho enrolado nos panos para manter quente! As garrafas de gasosa e compôs de plástico que vinham incluído uma palhinha (já se pensava ecologicamente).
Barriguinhas cheias, tudo arrumado, e lá seguimos viagem…
Tudo tranquilo, passamos Alcácer do Sal e ouvimos um barulho que não queríamos voltar a ouvir, um som característico de um pneu a rodar sem ar com um carro carregado. Tiras as malas, tira o pneu, desaperta a roda, volta a apertar a roda, coloca o pneu furado no fundo da bagageira, coloca as malas e vamos embora.
Como diz um ditado espanhol, “No creo en brujas, pero que las hay, las hay” (Não acredito em bruxas, mas que elas existem, elas existem).
Sem pneu suplente fizemo-nos à estrada, faltava um terço do caminho sensivelmente… Sim as bruxas estavam ativas e perto da Marateca voltamos a furar… o Pai teve de voltar a executar tudo o que já tinha feito naquele dia, tirar os pneus, pedir boleia, pedir ajuda, e voltar com os pneus “reparados”, montar, arrumar.
A resiliência da família foi posta à prova. No calor e com a febre de Fernando, todos os furos, exigindo coragem para pedir ajuda e acreditar que estranhos poderiam ajudar num domingo, mas, apesar de tudo, chegaram sãos e salvos, com o pai como verdadeiro herói…
No fim da viagem e com uma chegada de noite foram contabilizados seis pneus vazios, sim, seis furos!
Essa odisseia de desafios e superações talvez tenha inspirado o nascimento da Pneufurado, uma empresa moldada pela resiliência e determinação.
Enfim tudo acabou?
Não no dia seguinte, quando o pai saiu para trabalhar, encontrou um pneu em baixo, que mais podia acontecer tudo outra vez…
Suspirou, enfrentou a situação com tranquilidade, e foi trabalhar de comboio.
Sete furos numa só viagem…
Na equipa Pneufurado, aprendemos com esta história. O nosso compromisso é transformar adversidades em oportunidades, oferecendo serviços que refletem a resiliência e a dedicação de quem nunca desiste, mesmo diante dos maiores desafios. Obrigado, Pai.

